Foto: Jennifer Glass
A peça gratuita revela como temas abordados pela escritora e ativista política há quase 90 anos, ainda persistem na vida das mulheres
Em uma reflexão sobre a condição enfrentada pelas mulheres trabalhadoras, o espetáculo gratuito Parque Industrial adapta o romance homônimo escrito em 1933 pela escritora e ativista política Patrícia Galvão (1910-1962), mais conhecida como Pagu.
A peça, idealizada e dirigida por Gilka Verana, estreou em 2022 e agora ganha uma temporada nos Teatros Municipais. O espetáculo gratuito faz temporada no Teatro Alfredo Mesquita de 23 a 27 de abril, de quarta a sábado às 20h e domingo às 19h.
Em cena, estão as atrizes Barbara Garcia, Bruna Betito, Emilene Gutierrez, Ericka Leal, Flávia Rossi Tápias, Letícia Bassit e Tati Caltabiano e as musicistas Natália Nery e Dandá Costa.
Escritora, diretora de teatro, tradutora, jornalista e militante política, Pagu publicou o livro sob o pseudônimo de Mara Lobo. A obra faz um retrato da cidade de São Paulo da década de 1930 e expõe de forma crua as condições de abandono e exploração no cotidiano das mulheres trabalhadoras. “A obra de Pagu tem como temas principais a luta de classes e as mulheres operárias. Na peça, quis criar uma conexão com nosso tempo, a São Paulo que vivemos e também trazer um olhar para o protagonismo feminino no enfrentamento das mazelas produzidas pelo capitalismo”, revela Gilka Verana sobre a adaptação da peça..
O trabalho denuncia como muitas das questões vividas pelas mulheres no início do século XX, infelizmente, ainda estão presentes em nossa sociedade, como o machismo, a exploração da mulher, o assédio sexual no trabalho, a violência doméstica, a desigualdade de classe e gênero e o racismo estrutural.
Verana também mergulhou no trabalho de Pagu para atualizar o debate sobre a participação feminina atual nos cenários cultural e social brasileiro. A peça lida ainda com a materialidade poética da escrita da autora. “São pautas hoje amplamente discutidas, mas que já estavam em ebulição na época e foram apontadas por Pagu a partir de um ponto de vista feminino e feminista”, coloca a encenadora.
Para Gilka, Pagu faz denúncias sobre a situação feminina em diferentes classes sociais, tanto no ambiente social quanto no privado. “Pagu critica também a feminilidade que performa para agradar ao patriarcado e o feminismo elitista. Ela não apazigua. Ela nos faz confrontar e nos apropriarmos dessa discussão ao mesmo tempo que abre os caminhos para refletirmos sobre nossa condição atual enquanto mulheres, trabalhadoras e artistas”, revela a diretora.
Diferentemente do livro, que conta com três principais protagonistas, a peça traz onze mulheres em cena, todas com destaques, com linhas narrativas que se constroem e dissipam. Sem a presença de homens, as personagens masculinas são representadas de diferentes formas: um manequim, máscaras, vozes em off, leituras das falas dos homens feitas pelas atrizes.
“Esse olhar vivo em relação ao seu próprio tempo define a importância do resgate dessa obra, principalmente ao constatarmos que se tratam de desafios sociais enfrentados ainda hoje em batalhas contra praticamente as mesmas opressões e desigualdades”, finaliza a diretora.
Ambientação
A dramaturgia é composta por um prólogo, dezessete cenas e um epílogo, e se estrutura em camadas: a narrativa, conduzida por um coro de operárias; o videografismo e vídeo mapping, camada que faz um traçado histórico entre presente e passado, com imagens de documentos históricos e o cenário atual de São Paulo; a musical, composta por música ao vivo, que incorpora e tece as diferentes atmosferas de cada cena; e a camada Pagu, composta por fragmentos de outras obras de Patrícia Galvão como poemas e trechos de artigos.
O romance proletário de Pagu
O livro Parque Industrial faz uma transposição literária da fala e do modo de vida da mulher proletária em São Paulo na década de 1930, e tem como cenário o bairro do Brás, um dos mais representativos da entrada do trabalho industrial no Brasil.
É ao redor das fábricas de tecelagem dessa região que acompanhamos a trajetória de três mulheres: Corina, que se torna trabalhadora do sexo ao ser demitida por engravidar e não ser casada; Eleonora, que escapa da pobreza ao se casar com o rico Alfredo Rocha; e Otávia, uma militante que também se envolve com Alfredo.
São personagens nada heróicas, carregadas de desilusão, dor, desespero e falta de perspectiva, que buscam sobreviver em meio ao movimento dilacerante do progresso da cidade de São Paulo.
O enredo não se limita à trajetória das três personagens mencionadas aqui. Ele se apresenta como um mosaico complexo de uma cidade vista sob uma lente de aumento narrativa que amplia a perspectiva do lado voraz do progresso. A cidade de São Paulo, portanto, torna-se uma personagem tanto quanto as próprias mulheres.
Sinopse
O espetáculo mergulha no romance Parque Industrial, de Pagu, que denuncia as condições precárias das mulheres trabalhadoras da década de 1930. Ao embarcar nessa obra quase um século depois, onze mulheres refletem sobre os desafios políticos e sociais enfrentados ainda hoje em batalhas contra praticamente as mesmas opressões e desigualdades.
SERVIÇO:
Parque Industrial, com adaptação e direção de Gilka Verana
Classificação: 16 anos
Duração: 120 minutos
Quando: 23 a 27 de abril, de quarta a sábado às 20h e domingo às 19h
Gratuito (Retirada dos ingressos 1 hora antes na bilheteria do teatro).
Teatro Alfredo Mesquita – Av. Santos Dumont, 1770, Santana, São Paulo/SP.
Confira o teaser