Uso contínuo de podcasts, músicas, reuniões e vídeos exige atenção constante e pode aumentar a sensação de fadiga mental
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O fone de ouvido virou companhia constante para muitas pessoas. No trabalho, nos estudos, durante o exercício, nos deslocamentos e até antes de dormir, músicas, podcasts, mensagens de voz e vídeos ocupam cada vez mais espaço na rotina.
Mas, além dos cuidados já conhecidos com o volume e a saúde da audição, existe outro aspecto que merece atenção: o esforço do cérebro para processar uma quantidade contínua de estímulos sonoros.
Segundo dados da consultoria Grand View Research, o mercado global de fones de ouvido deve ultrapassar US$ 198 bilhões até 2030, impulsionado pelo crescimento do consumo de áudio digital, do trabalho híbrido e da popularização dos dispositivos sem fio.
Ao mesmo tempo, podcasts e audiolivros ganharam espaço como ferramentas de informação e entretenimento. O resultado é uma rotina em que muitas pessoas passam grande parte do dia ouvindo algum tipo de conteúdo.
O cérebro também trabalha para escutar
De acordo com Andréa Paz, fonoaudióloga, PhD em Fonoaudiologia, especialista em Processamento Auditivo Central e criadora do Treinamento Auditivo Neurocognitivo (TAN), ouvir não é uma atividade restrita aos ouvidos.
“A maior parte das pessoas associa a audição apenas ao ouvido, mas ouvir é um processo muito mais complexo.”
O cérebro precisa organizar, selecionar e interpretar os sons recebidos. Esse processamento envolve atenção, memória, linguagem e outras funções cognitivas.
É esse mecanismo que permite, por exemplo, acompanhar uma conversa em um ambiente movimentado, compreender uma reunião virtual ou identificar um alerta no trânsito enquanto outros sons permanecem em segundo plano.
Segundo a especialista, quanto maior a quantidade de estímulos, maior pode ser o esforço necessário para processar essas informações.
Excesso de estímulos pode gerar sensação de cansaço
Quando a exposição aos sons se prolonga por muitas horas, principalmente sem intervalos, algumas pessoas relatam esgotamento, dificuldade de concentração ou vontade de permanecer em silêncio ao final do dia.
“Nem sempre esse cansaço está relacionado ao trabalho em si. Em muitos casos, ele também está associado ao esforço cognitivo necessário para lidar com uma quantidade muito grande de informações sonoras”, explica Andréa.
A rotina atual favorece esse cenário. Uma pessoa pode acordar ouvindo notícias, trabalhar com música, participar de reuniões virtuais, responder mensagens de voz, caminhar acompanhando um podcast e terminar o dia assistindo vídeos.
Assim, momentos que antes poderiam ser preenchidos pelo silêncio acabam sendo ocupados por algum estímulo sonoro.
Por que o silêncio também é importante?
Para Andréa, o problema não está em ouvir música, podcasts ou outros conteúdos. A questão é a falta de pausas ao longo do dia.
“O cérebro praticamente não encontra intervalos entre um estímulo sonoro e outro.”
A especialista afirma que alternar períodos de concentração intensa com pequenos intervalos de silêncio pode favorecer a recuperação da atenção.
Nesse contexto, o silêncio pode funcionar como um momento de redução da carga de processamento, permitindo que o cérebro tenha períodos sem a necessidade de interpretar novos estímulos sonoros.
Não é preciso abandonar os fones
A recomendação não é deixar de utilizar fones de ouvido. Eles fazem parte da rotina contemporânea e podem ser úteis para trabalho, estudo, lazer e comunicação.
A proposta é desenvolver uma relação mais consciente com o consumo de áudio.
Entre as estratégias estão intercalar momentos com e sem estímulos sonoros, evitar passar muitas horas seguidas utilizando fones e observar sinais de fadiga mental.
“Assim como nosso corpo precisa de pausas depois de um esforço físico, o cérebro também se beneficia de momentos em que não precisa processar tantas informações ao mesmo tempo”, afirma Andréa.
A ideia é incorporar intervalos à rotina sem transformar o uso da tecnologia em um problema por si só.
O desafio de equilibrar informação e descanso
A popularização do áudio mudou a maneira como muitas pessoas aprendem, trabalham e se comunicam. É possível aproveitar deslocamentos para ouvir um podcast, transformar uma atividade doméstica em oportunidade de aprendizado ou acompanhar uma reunião remotamente.
Ao mesmo tempo, a sensação de que todos os momentos precisam ser preenchidos com conteúdo pode dificultar a criação de períodos de descanso.
Para Andréa, é importante repensar essa relação.
“Vivemos uma época em que estar sempre ouvindo alguma coisa passou a ser considerado produtivo.”
Nesse cenário, reservar alguns momentos do dia para simplesmente não ouvir nada pode ser uma maneira de criar equilíbrio entre informação e descanso.
Cinco hábitos para lidar melhor com os estímulos sonoros
Faça pequenas pausas ao longo do dia. Alguns minutos de silêncio podem ajudar a reduzir a quantidade de estímulos recebidos continuamente.
Evite permanecer horas seguidas usando fones de ouvido. Sempre que possível, alterne períodos com e sem estímulos sonoros.
Preste atenção ao cansaço mental. Dificuldade para manter a concentração ou sensação de esgotamento podem ser sinais de que é hora de fazer uma pausa.
Nem todo momento precisa ser preenchido por áudio. Caminhadas curtas e deslocamentos também podem ser oportunidades para desacelerar.
Respeite seu conforto auditivo. Mais importante do que ouvir o tempo todo é perceber como o organismo responde à rotina de estímulos.
O que você acha dessa rotina?
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