Bege, areia, caramelo, terracota, café e chocolate deixam de ser coadjuvantes e passam a representar uma estética ligada à sofisticação, permanência e consumo consciente
Foto: Divulgação
A presença dos tons terrosos na moda de luxo ganhou força e revela uma transformação na maneira como consumidores de alto padrão desejam comunicar estilo e sofisticação. Bege, areia, caramelo, terracota, café e chocolate aparecem com protagonismo em vitrines, passarelas e guarda-roupas, construindo uma estética associada à permanência e à elegância natural.
Para Leka Tavares, pesquisadora de comportamento, consumo, luxo e tendências globais, a preferência por essa paleta vai além de uma questão estética. Segundo ela, as cores refletem uma mudança na percepção do consumidor sobre o próprio luxo.
“Os tons terrosos transmitem calma, estabilidade e sofisticação. Em um mundo cada vez mais acelerado e cheio de estímulos, eles representam exatamente o oposto: equilíbrio, permanência e autenticidade.”
Do excesso à sofisticação discreta
De acordo com a pesquisadora, a valorização dos tons terrosos está relacionada a movimentos como o luxo silencioso, o consumo consciente e a busca por peças atemporais.
Nesse cenário, a moda deixa de depender necessariamente de cores marcantes ou elementos visuais chamativos para transmitir exclusividade. A escolha da cartela passa a trabalhar com uma comunicação mais discreta, na qual qualidade, acabamento e versatilidade assumem maior importância.
Leka Tavares avalia que as grandes maisons perceberam essa mudança no comportamento de consumo e passaram a valorizar peças capazes de permanecer relevantes por mais tempo.
“As grandes maisons perceberam que o consumidor não busca mais roupas que durem apenas uma temporada. Existe uma procura crescente por peças que atravessem o tempo, que combinem entre si e que continuem elegantes independentemente das tendências.”
A lógica também se conecta à construção de um guarda-roupa mais planejado, no qual diferentes peças podem ser combinadas sem depender exclusivamente das novidades de cada coleção.

Cores versáteis ajudam a construir um guarda-roupa inteligente
A versatilidade é outro elemento apontado pela especialista para explicar a força dessa paleta.
Segundo Leka, investir em uma cartela de cores harmônica aumenta as possibilidades de combinação e pode contribuir para escolhas de consumo mais planejadas.
“Quando uma pessoa investe em uma cartela harmônica de cores, ela amplia as possibilidades de combinação e reduz o consumo por impulso. Isso demonstra uma forma de consumir mais estratégica e muito mais sofisticada.”
Nesse sentido, os tons terrosos funcionam como uma espécie de base para diferentes composições. A proximidade entre as tonalidades permite criar combinações monocromáticas ou misturar nuances distintas sem comprometer a unidade visual.
A proposta dialoga com uma mudança mais ampla no comportamento de consumidores que valorizam durabilidade, versatilidade e atemporalidade na hora de escolher produtos.
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A influência da arquitetura e do design
Para Leka Tavares, a força dos tons terrosos não está restrita ao universo da moda. A mesma estética pode ser observada em outros segmentos associados ao mercado premium, como arquitetura, design e hotelaria.
Nesses setores, materiais naturais e tonalidades neutras já são utilizados para criar ambientes associados ao conforto, ao bem-estar e à sofisticação.
A pesquisadora identifica uma conexão entre essas diferentes áreas. Segundo ela, os tons terrosos ajudam a construir uma linguagem visual comum baseada em elementos naturais e em uma sensação de acolhimento.
“Existe uma conexão entre tudo o que comunica bem-estar. Os tons terrosos remetem à natureza, ao conforto e à qualidade dos materiais. Não é apenas uma escolha estética, mas uma forma de viver.”
Essa aproximação entre moda, arquitetura e design reforça a ideia de que as tendências de consumo não acontecem de maneira isolada. Cores, materiais e conceitos podem atravessar diferentes segmentos e representar mudanças mais amplas nos desejos do público.
O novo luxo valoriza permanência
Para a pesquisadora, o protagonismo dos tons terrosos demonstra uma transformação que ultrapassa as coleções de moda.
Em vez de associar luxo ao excesso de elementos visuais, o mercado premium passa a explorar atributos como qualidade, discrição, autenticidade e longevidade.
Essa mudança também ajuda a explicar por que cores tradicionalmente consideradas neutras ganharam espaço em produtos de maior valor agregado. A possibilidade de permanecerem atuais por mais tempo aumenta sua versatilidade e reduz a dependência de tendências passageiras.
Na avaliação de Leka Tavares, essa transformação representa uma nova relação entre consumo e identidade.
“O luxo deixou de ser construído pelo excesso de informação visual. Hoje, ele está nos detalhes, na qualidade e na capacidade de transmitir elegância com naturalidade.”
Assim, bege, areia, caramelo, terracota, café e chocolate deixam de ocupar apenas posições secundárias nas coleções e passam a representar uma estética associada ao luxo contemporâneo.
Para a especialista, essas cores sintetizam um momento em que o consumidor procura fazer escolhas mais conscientes, mas sem abrir mão da sofisticação.
“Os tons terrosos representam exatamente esse novo momento do consumo: mais consciente, mais atemporal e muito mais sofisticado.”
O que essa tendência revela sobre o consumidor
Mais do que uma mudança na cartela de cores, a valorização dos tons terrosos aponta para uma transformação na forma como o consumidor deseja ser percebido.
A busca por equilíbrio, autenticidade e permanência ganha espaço diante de um cenário marcado pelo excesso de estímulos e pela velocidade das tendências.
Na leitura da pesquisadora, o resultado é uma estética mais silenciosa, mas não menos sofisticada. O destaque passa a estar na combinação entre materiais, qualidade, versatilidade e escolhas capazes de permanecer relevantes ao longo do tempo.
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